A orientação do líder budista tibetano sobre sua reencarnação bate de frente com o governo comunista de Pequim
THE WALL STREET JOURNAL | Por Tripti Lahiri | 10 de marzo de 2025 | Versão em espanhol aqui

Foto: Priyanshu Singh/Reuters
Em exílio, o líder espiritual do Tibete, o Dalai Lama, escreveu, em seu novo livro, que pretende reencarnar fora da China e conclama o povo tibetano a rejeitar qualquer sucessor escolhido por Pequim.
A declaração do monge budista de 89 anos ocorre no momento em que as autoridades tibetanas — tanto religiosas quanto seculares — se preparam para enfrentar o Partido Comunista ateu da China, que insiste que detém o direito exclusivo de escolher o novo Dalai Lama após sua morte.
Trata-se de uma disputa crucial para a sobrevivência da religião, cultura e política tibetanas.
A reencarnação é a forma tradicional de determinar a sucessão dos líderes mais importantes do Tibete. E o renascimento do Dalai Lama será uma questão de grande importância religiosa e geopolítica, que a China considera essencial do ponto vista estratégico.
O atual Dalai Lama desempenhou um papel central em mobilizar apoio internacional à causa tibetana e em unir o povo do Tibete dentro e fora da China. Pode levar anos após sua morte até que seu sucessor, provavelmente escolhido ainda criança, possa assumir o posto de liderança.
Em “Voz para os Sem Voz: Mais de Sete Décadas de Luta com a China pela Minha Terra e Meu Povo”, um livro de memórias publicado esta semana, o Dalai Lama condenou o que chamou de “o período sombrio da ocupação comunista chinesa” do Tibete, mas afirmou que “nada é imune à lei da impermanência”.

Um homem acena com uma bandeira do Tibete em Dharamshala, Índia, na segunda-feira.
Foto: Ashwini Bhatia/Associated Press
Ele afirmou que o povo do Tibete deixou claro para ele que a linhagem do Dalai Lama deve continuar e que a escolha de um sucessor deve ser feita de acordo com as práticas tradicionais, nas quais lamas e monges conduzem a busca.
Nascido em uma família de agricultores em uma vila no nordeste do Tibete, o atual Dalai Lama foi identificado aos 2 anos por lamas budistas experientes.
O livro do Dalai Lama será publicado na terça-feira pela HarperCollins, um braço da News Corp, empresa-mãe da Dow Jones & Co., editora do The Wall Street Journal.
Oficialmente, o Dalai Lama começou a liderar o povo tibetano em 1950, com 16 anos, um mês após o governo comunista da China, estabelecido em 1949, enviar milhares de tropas para a região do Himalaia para estabelecer o controle.
O Dalai Lama fugiu de Lhasa, sede histórica do budismo tibetano, em março de 1959, após eclosão de uma revolta tibetana, motivada por temores de que as autoridades comunistas estivessem planejando sequestrar o Dalai Lama. Desde então, ele vive no exílio na Índia.
Depois de décadas servindo como líder político e religioso do povo tibetano, o Dalai Lama separou essas funções em 2011, transferindo o poder político para o chefe do governo tibetano no exílio, em parte para garantir que o movimento tibetano sobrevivesse sem ele.
“Quem quer que escolha o 15º Dalai Lama não estará mais escolhendo um líder político, mas apenas um líder religioso”, disse Cameron David Warner, professor associado de antropologia na Universidade Aarhus, da Dinamarca, cuja pesquisa se concentra no budismo dos Himalaias.
Ainda assim, a presença do Dalai Lama é crucial para a legitimidade da Administração Central Tibetana, como é conhecido o governo tibetano no exílio.
Especialistas no Tibete apontam para um conclave religioso programado para o início de julho, pouco antes do 90º aniversário do Dalai Lama, em 6 de julho, como um sinal de que o líder budista tibetano pode estar preparando uma nova declaração sobre sua reencarnação.
“A continuidade da instituição Dalai Lama vai ser crucial como o elo que pode nos unir a todos”, disse Thupten Jinpa, tradutor de longa data do Dalai Lama, que o auxiliou na elaboração do livro.
No livro, o Dalai Lama aborda sua relação com a China.

no final do ano passado. Foto: Priyanshu Singh/Reuters
Após Mao Zedong, cujo governo trouxe violência e fome ao Tibete, Deng Xiaoping tentou iniciar um diálogo por meio do irmão do Dalai Lama, Gyalo Thondup, então baseado em Hong Kong e que faleceu no mês passado.
O então Panchen Lama, a figura mais importante para os budistas tibetanos depois do Dalai Lama, foi libertado da prisão e, posteriormente, da prisão domiciliar, e a China permitiu que tibetanos exilados fizessem visitas.
Na década de 1980, o Dalai Lama deixou de lado a busca pela independência do Tibete e passou a defender a autonomia dos tibetanos dentro da China. Isso se deveu, em parte, porque ele duvidava que a independência fosse possível, dado o controle de Pequim sobre a região. No entanto, as negociações entre seus representantes e a China não produziram resultados.
Desde que o líder chinês Xi Jinping assumiu o poder em 2012, houve apenas contatos informais entre o Dalai Lama e Pequim.
“Ainda continuo convencido de que, com vontade política e visão por parte da liderança chinesa, não seria difícil para a China satisfazer as necessidades dos tibetanos”, disse ele.
O relato do Dalai Lama chega em um momento delicado para a causa tibetana.

Foto: Priyanshu Singh/Reuters
O aumento da segurança e da vigilância no Tibete após os protestos de 2008 e uma onda de autoimolações, principalmente por monges, tornaram mais difícil para os tibetanos fugirem para a Índia e sufocaram o fluxo de informações da região.
Agora, sob o governo de Xi Jinping, a China está intensificando uma campanha para assimilar os tibetanos, incluindo o envio de crianças pequenas para internatos de língua chinesa e restringindo sua capacidade de estudar a língua tibetana.
A suspensão de grande parte da ajuda externa pela administração Trump afetará o governo tibetano no exílio, cortando cerca de 14 milhões de dólares destinados a vários programas, segundo Penpa Tsering, o chefe da administração tibetana no exílio.
Em 28 de fevereiro, no início do ano novo tibetano, o Secretário de Estado Marco Rubio afirmou em um comunicado que “os Estados Unidos continuam comprometidos em proteger os direitos humanos universais, fundamentais e inalienáveis dos tibetanos”.
Apesar dos desafios crescentes para a causa tibetana, o Dalai Lama conclamou os tibetanos a manterem a esperança — assim como ele.
Escreva para Tripti Lahiri em tripti.lahiri@wsj.com
Traduzido por Ana Paula Vieira e Daniel Sermento em São Paulo, SP, Brasil