The Guardian | 30 de setembro de 2025 | Versão em espanhol aqui
Zhang Yadi estava prestes a começar a graduação no Reino Unido, mas a ativista desapareceu durante as férias, em meio às tensões sobre o Dalai Lama.”

No ano passado, enquanto Zhang Yadi fazia um tour por aldeias remotas na província chinesa de Sichuan, ela ia mantendo seus amigos atualizados com mensagens e fotos de paisagens de florestas exuberantes, de ruas coloridas e de moradores locais usando roupas tradicionais tibetanas.
As regiões da província, em grande parte habitadas por tibetanos, tornaram-se um destino turístico popular para viajantes de férias. Mas a jovem de 22 anos, de recesso de seus estudos na Europa, contou aos amigos que ficou entristecida com o que viu.
Embora pudesse ouvir conversas em tibetano por toda parte, toda a sinalização estava em mandarim. Toda loja e restaurante por que passava parecia ser de propriedade chinesa, e não tibetana. Todos os postes de iluminação estavam decorados com bandeiras chinesas; um rio interminável de vermelho contra um céu nublado de verão.
Para ela, parecia que a cultura e a identidade tibetanas estavam sendo apagadas. A experiência a colocou em um caminho que acabaria em sua prisão e desaparecimento.
“Ela sempre falava sobre os problemas enfrentados na China por mongóis, tibetanos e uigures”
— Kalsang Yarphel
A história dela parece ser o mais um exemplo de que Pequim tem voltado sua mira para o ativismo realizado no exterior. No ano passado, as autoridades chinesas colocaram uma recompensa por uma jovem de 19 anos em Leeds, devido ao seu ativismo em apoio à democracia em Hong Kong.
Criada no budismo, ainda no ensino médio, na China, Zhang foi ficando cada vez mais interessada na vertente tibetana da religião, e logo depois começou a praticá-la. Seus amigos dizem que ela também passou a ter maior consciência da difícil situação enfrentada pelas minorias étnicas.
Depois de chegar à França em 2022, ela passou a se manifestar abertamente sobre os abusos de direitos humanos e, no ano passado, começou a escrever para um boletim pró-Tibete administrado pelo grupo ativista Chinese Youth Stand For Tibet (CYST).
“Ela sempre falava sobre os problemas enfrentados na China por mongóis, tibetanos e uigures. Ela dizia que ficava muito triste na escola porque não podia realmente compartilhar o que sentia”, conta Kalsang Yarphel, parceiro tibetano de Zhang há dois anos.
“Mas quando ela começou a escrever [para o boletim pró-Tibete] e viu que as pessoas ao seu redor realmente valorizavam seu trabalho e o seu coração, ela ficou menos deprimida”, diz ele.

A China apresentou neste mês um projeto de lei que proíbe ações que “prejudiquem a unidade étnica”, mesmo que ocorram no exterior. Segundo a Human Rights Watch, o país também tem pressionado cada vez mais instituições estrangeiras a se referirem ao Tibete como “Xizang”, o nome da região em mandarim.
O Tibete, atualmente uma região autônoma da China, foi anexado em 1951. Mais recentemente, Pequim tem sido acusada de assimilar os tibetanos à força. Uma série de protestos em massa contra a ocupação chinesa em 2008 foi seguida por forte censura e prisões.
Zhang voltou à China neste verão e havia planejado viajar para outras regiões tibetanas, mas foi presa no fim de julho. Nem sua família nem seus amigos tiveram qualquer contato com ela desde então.
Acredita-se que ela esteja sendo mantida em um centro de detenção em sua cidade natal, Changsha, no centro da China, sob suspeita de “incitar o separatismo”. A acusação tem sido amplamente utilizada para condenar tibetanos e uigures como parte da crescente repressão de Pequim aos movimentos separatistas. Se for considerada culpada, Zhang poderá cumprir uma pena de até 15 anos de prisão.
Kalsang Yarphel afirma que a prisão dela foi um grande choque. “É muito difícil”, diz ele. “Minha cabeça está a mil.”
“Não acho que ela esperava uma acusação tão pesada… nós não estamos defendendo separatismo. Não quero ela presa de jeito nenhum.” — Ginger Duan
Ginger Duan, fundadora do CYST e amiga próxima de Zhang, disse que a amiga talvez não tenha se sentido insegura de viajar para regiões tibetanas da China por ser uma jovem estudante chinesa que nunca havia tido encontros hostis com as autoridades. Ela já havia viajado para regiões tibetanas anteriormente sem nenhum problema.
“Eu não acho que ela esperava uma acusação tão pesada, porque nós [no boletim e no CYST] não estamos defendendo separatismo. Não quero ela presa de jeito nenhum”, afirma Duan, acrescentando que, embora o grupo já tenha sido alvo das autoridades no passado, nenhum colaborador havia sido detido até então.
Zhang falava sobre querer que os chineses compreendessem melhor a cultura e a identidade tibetanas. “Nós [no CYST] gostaríamos de promover mais discussões entre tibetanos e chineses han, para que os dois lados possam ouvir um ao outro. Acho que isso é muito importante”, disse ela, em uma gravação feita em maio e compartilhada com o Guardian por amigos pouco antes de sua viagem à China.
Yicheng Huang, que ensinava a língua tibetana a Zhang online, afirma que ativistas fora da China deveriam ter feito mais para priorizar sua segurança. “Ela é muito jovem”, diz ele. “Ela sempre teve paixão e ideias, sempre foi corajosa. E acreditava no budismo. Ela não percebeu o quão perigoso isso era.”

Não muito antes da prisão e desaparecimento de Zhang, o Dalai Lama, que como líder espiritual do budismo tibetano há muito é um incômodo para as tentativas de Pequim de suprimir a identidade tibetana, celebrou seu 90º aniversário.
Em um ato de desafio à China, ele anunciou aos monges e líderes tibetanos que pretendia permanecer no cargo até sua morte, após a qual seu círculo íntimo teria a “autoridade exclusiva” para localizar seu sucessor (a criança na qual os tibetanos acreditam que o espírito do Dalai Lama renasce). Pequim insiste que a escolha do próximo Dalai Lama cabe somente à China e chegou a consagrar essa reivindicação na lei chinesa.
Maya Wang, da Human Rights Watch, afirma que, embora seja difícil determinar o que desencadeou a prisão de Zhang, o anúncio do Dalai Lama provavelmente teve impacto nesse caso.
Zhang estava prestes a iniciar seus estudos de pós-graduação em antropologia na SOAS University of London, e seus amigos dizem que ela almejava trabalhar na área de direitos humanos.
Um porta-voz da SOAS declarou: “Estamos cientes de relatos de que uma cidadã chinesa, que recebeu uma oferta de vaga na SOAS, está desaparecida e detida. Estamos acompanhando o caso de perto e oferecendo apoio aos afetados pelos canais disponíveis.”
A embaixada chinesa em Londres foi procurada para comentar o caso.
